O Que Aconteceu
A Ultrapar Participações (B3: UGPA3 / NYSE: UGP), holding dona das redes Ipiranga, Ultragaz, Ultracargo e Hidrovias do Brasil, divulgou resultados do quarto trimestre de 2025 na noite de 4 de março, em dia antecedente à conferência com investidores marcada para 5 de março. O resultado combinado refletiu melhora operacional na Ipiranga — principal ativo do grupo — frente a um quarto trimestre de 2024 artificialmente inflado por créditos fiscais extraordinários, enquanto o EBITDA ajustado ficou ligeiramente aquém das projeções dos analistas.
This is part of The Rio Times’ daily coverage of Brazil corporate earnings and Latin American financial news.
O lucro líquido reportado recuou a R$256 milhões ($49M) ante R$881 milhões ($169M) no mesmo trimestre de 2024. A queda, entretanto, é uma distorção de base: no quarto trimestre de 2024, a Ultrapar reconheceu créditos fiscais extraordinários que inflaram o resultado reportado. Expurgado esse efeito, o lucro líquido ajustado saltou 49% na comparação anual, chegando a R$439 milhões ($84M).
O EBITDA ajustado totalizou R$1,56 bilhão ($299M) no trimestre, abaixo dos R$2,38 bilhões ($456M) reportados no quarto trimestre de 2024 — período que também foi impulsionado por itens não recorrentes. Comparado à base recorrente de R$1,284 bilhão ($246M) no 4T24, a métrica operacional avançou aproximadamente 21% na comparação anual. A média dos analistas compilada pela LSEG apontava para R$1,6 bilhão em EBITDA ajustado, resultando em um desvio de -2,5% em relação ao consenso.
Principais Drivers
Ipiranga — Distribuição de Combustíveis
A Ipiranga, responsável pela maior fatia do EBITDA do grupo — R$1,08 bilhão ($207M) no 3T25, o trimestre anterior —, voltou a reportar avanço de volumes no quarto trimestre. O total vendido cresceu 7% na comparação anual, e a receita líquida subiu 6%, para R$34,13 bilhões ($6,55B), reflexo direto dos efeitos positivos das operações do governo contra as irregularidades no setor. A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, desmantelou um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), que utilizava distribuidoras irregulares, fundos de investimento e fintechs como veículos de repasse. A redução da informalidade vem restaurando market share às distribuidoras formais.
A estratégia de repricing da Ipiranga — com crescimento de receita superando o crescimento de volumes — continua em andamento, refletindo os investimentos em embandeiramento de postos, lojas ampm e rede Jet Oil. Para 2026, a Ipiranga receberá R$1,28 bilhão ($245M) do plano de investimento do grupo, com foco em expansão logística e o ecossistema de serviços complementares.
Ultragaz, Ultracargo e Hidrovias do Brasil
A Ultragaz enfrentou ambiente desafiador ao longo de 2025, com volumes de GLP pressionados pela demanda industrial fraca e competição acirrada no segmento granel. No terceiro trimestre, o EBITDA ajustado recorrente havia ficado em R$463 milhões ($88,8M), 3% acima do mesmo período de 2024. Os analistas do BTG Pactual projetam margem de R$1.045 por tonelada para a Ultragaz em 2026, com impacto limitado das propostas regulatórias da ANP sobre o enchimento parcial de botijões de GLP. O programa “Gás para o Povo”, substituto do antigo Vale Gás e lançado em setembro de 2025, pode expandir significativamente a base de beneficiários e adicionar volumes incrementais.
A Ultracargo concluiu em outubro de 2025 a expansão do terminal de Santos, adicionando 34.000 metros cúbicos de capacidade. A Hidrovias do Brasil, consolidada integralmente no balanço da Ultrapar desde o segundo trimestre de 2025, registrou EBITDA ajustado recorrente de R$361 milhões ($69,2M) no 3T25 — mais do que o dobro do reportado no mesmo período do ano anterior —, após a venda da operação de cabotagem por R$750 milhões ($143,8M) que permitiu o foco em negócios de maior sinergia com o grupo.
A aquisição de 37,5% da Virto, operadora de logística de GNL, por R$102 milhões ($19,6M) sinaliza a continuidade da diversificação em novas energias, alinhando Ultragaz e Ultracargo à transição energética do setor.
Detalhe Financeiro
Resultado Consolidado Q4 2025
O EBITDA ajustado de R$1,56 bilhão ($299M) apresentou ligeiro desvio de -2,5% ante o consenso LSEG de R$1,6 bilhão. O lucro líquido reportado de R$256 milhões ($49M) é tecnicamente comparável ao R$881 milhões ($169M) do 4T24, mas essa comparação anual é distorcida pela presença de créditos fiscais extraordinários no período anterior. Nas bases ajustadas — que expurgam itens não recorrentes de ambos os períodos — o lucro cresceu 49%.
A alavancagem financeira encerrou dezembro em 1,7x a dívida líquida/EBITDA, ante 1,4x no final de 2024 — elevação decorrente principalmente da consolidação integral da Hidrovias no balanço, após a conclusão da aquisição. O BTG Pactual projeta desalavancagem para 1,6x ao final de 2026, assumindo pagamento de cerca de R$1,2 bilhão em dividendos no ano, o que equivale a aproximadamente 5% de dividend yield sobre o preço atual.
Plano de Investimentos 2026
A Ultrapar aprovou um plano de investimento de R$2,62 bilhões ($502M) para 2026, ligeiramente superior ao desembolsado em 2025. Do total, R$1,11 bilhão ($213M) destina-se a projetos de expansão. A Ipiranga receberá R$1,28 bilhão ($245M), com foco em embandeiramento de postos e expansão da rede ampm e Jet Oil; a Ultragaz, R$600 milhões ($115M); a Ultracargo, R$434 milhões ($83M); e a Hidrovias do Brasil, R$270 milhões ($52M).
Sinais da Gestão
Key Facts
— CEO Rodrigo Pizzinatto afirmou que o grupo segue “sempre buscando bons projetos onde possa criar valor, desbloqueando crescimento e otimizando operações”, enquanto o CEO da Ipiranga, Leonardo Linden, destacou os impactos positivos da Operação Carbono Oculto no ambiente competitivo do setor de combustíveis.
— A gestão sinalizou para o 4T25 continuação da recuperação de mercado iniciada no segundo semestre de 2025, além de potencial distribuição de dividendos — confirmada pelo plano de R$1,2 bilhão projetado pelo BTG para o ano de 2026.
— O BTG Pactual, assessor financeiro da Ultrapar em outros contextos, foi contratado para avaliar uma eventual venda da Ipiranga segundo coluna do O Globo publicada em fevereiro de 2026. Potenciais interessados incluiriam TotalEnergies, Aramco e J&F. A companhia afirmou que “não comenta especulações” e que divulgará qualquer informação relevante conforme a regulamentação aplicável.
O Que Observar a Seguir
A conferência de resultados do 4T25, realizada em 5 de março de 2026, deve trazer mais detalhes sobre a margem EBITDA da Ipiranga por metro cúbico no trimestre — o BTG projeta R$165/m³ para o ano de 2026, ante R$140/m³ registrado em 2025, embasado na consolidação da Operação Carbono Oculto e no avanço contínuo das fiscalizações contra distribuidoras irregulares. Os investidores monitorarão se a Ipiranga efetivamente atingiu ou superou essa trajetória no Q4.
A trajetória da alavancagem será outro ponto de atenção. Embora o BTG estime queda para 1,6x ao final de 2026, o aumento de 1,4x para 1,7x em 2025 decorrente da Hidrovias ainda precisa ser demonstrado como administrável. Adicionalmente, a pressão financeira do SELIC em 15% ao ano mantém o custo da dívida elevado, comprimindo a geração de caixa livre disponível para dividendos e recompras.
O desenvolvimento mais significativo no horizonte é a especulação sobre a venda da Ipiranga, que responde por cerca de 54% do EBITDA consolidado do grupo. Se confirmada, a transação redefiniria por completo o perfil da Ultrapar — a pergunta central para os investidores é: o que a companhia faria com os recursos, e a R$31 de preço-alvo (BTG) estaria de alguma forma pré-precificando um desinvestimento?
Tabela: Resultados Consolidados 4T25
| Métrica | 4T25 | 4T24 | Var. YoY | vs. Consenso |
|---|---|---|---|---|
| EBITDA Ajustado | R$1,56B ($299M) | R$2,38B* ($456M) | — | -2,5% |
| EBITDA Recorrente 4T24 | — | R$1,284B ($246M) | +21% (aprox.) | — |
| Lucro Líquido Reportado | R$256M ($49M) | R$881M* ($169M) | — | — |
| Lucro Líquido Ajustado | R$439M ($84M) | ~R$295M** ($57M) | +49% | — |
| Receita Líquida Ipiranga | R$34,13B ($6,55B) | ~R$32,2B ($6,17B) | +6% | — |
| Volume Ipiranga | — | — | +7% | — |
| Alavancagem (Dív. Líq./EBITDA) | 1,7x | 1,4x | +0,3x | — |
* 4T24 incluiu créditos fiscais extraordinários; comparação YoY distorcida. ** 4T24 ajustado derivado: R$439M ÷ 1,49 ≈ R$295M (estimativa derivada). Câmbio: BRL/USD 5,2150 (4 mar 2026).
Tabela: Plano de Investimentos 2026 por Subsidiária
| Subsidiária | CapEx 2026 (R$) | CapEx 2026 (USD) | % do Total |
|---|---|---|---|
| Ipiranga | R$1,28B | $245M | 49% |
| Ultragaz | R$600M | $115M | 23% |
| Ultracargo | R$434M | $83M | 17% |
| Hidrovias do Brasil | R$270M | $52M | 10% |
| Total | R$2,62B | $502M | 100% |
Riscos
O risco mais imediato é a execução da desalavancagem. A elevação de 1,4x para 1,7x em 2025 decorrente da Hidrovias deixou o balanço mais apertado num ambiente de SELIC a 15% ao ano, em que o custo da dívida consome uma parcela crescente da geração operacional de caixa. Se as margens da Ipiranga não se expandirem conforme projetado — BTG espera R$165/m³ em 2026 ante R$140/m³ em 2025 —, a desalavancagem será mais lenta e limitará a capacidade de distribuição de dividendos.
A persistência das irregularidades no setor de combustíveis representa risco estrutural para a tese da Ipiranga. Embora a Operação Carbono Oculto tenha promovido melhora significativa, os analistas do BTG reconhecem que a normalização plena do mercado depende da continuidade das fiscalizações. Qualquer retrocesso regulatório ou judicial que permita a reentrada de distribuidoras irregulares pressionaria as margens por metro cúbico.
A Ultragaz enfrenta riscos regulatórios específicos, incluindo propostas da ANP de permitir o enchimento parcial de botijões de GLP — medida que o BTG considera improvável por introduzir instabilidade no mercado e riscos de segurança —, além de potencial impacto do crescimento acelerado da Petrobras no segmento de GLP a granel.
A especulação sobre a venda da Ipiranga, se confirmada, alteraria materialmente o perfil de risco da Ultrapar: a unidade representa mais da metade do EBITDA consolidado, e sua saída sem uma alocação clara de capital poderia provocar reclassificação do UGPA3 pelo mercado. Pelo lado positivo, uma transação a múltiplos favoráveis liberaria caixa substancial para dividendos extraordinários ou redução de alavancagem.
Contexto Setorial
Key Facts
— O setor de distribuição de combustíveis brasileiro passa por um processo de normalização estrutural após anos de competição assimétrica entre distribuidoras formais e irregulares. A Operação Carbono Oculto de agosto de 2025 foi o catalisador mais importante, mas o efeito real dependerá da manutenção das fiscalizações e da eficácia dos novos mecanismos regulatórios de PIS/Cofins no diesel.
— A Ultrapar compete diretamente com a Vibra Energia (VBBR3) na distribuição de combustíveis. A Vibra negociou a múltiplos semelhantes ao longo de 2025, mas com P/E atual de aproximadamente 9x — desconto relevante ante a média histórica de 13x da própria Ultrapar —, os analistas do BTG veem assimetria favorável no UGPA3. O ROIC projetado de 18% para 2026 sustenta um prêmio sobre a Vibra (17% estimado), segundo o Bradesco BBI.
— No segmento de GLP, a entrada da Petrobras no mercado e as mudanças regulatórias propostas pela ANP criam ruído de curto prazo para a Ultragaz — embora o programa “Gás para o Povo” potencialmente adicione volumes incrementais. A Ultracargo e a Hidrovias do Brasil operam em segmentos de infraestrutura com barreiras de entrada elevadas, oferecendo estabilidade ao portfólio diversificado da Ultrapar.
For more context, read Brazil’s Morning Call and the Chile IPSA report.
This article was produced by The Rio Times’ automated newsroom system. How we use AI · Report an error
Read More from The Rio Times